Datado de 1988, publicado no primeiro número da Partt Journal of Architecture, o ensaio que carrega o título EM TERROR FIRMA: NA TRILHA DOS GROTEXTOS; de início ressalta a herança direta de Derrida: Peter Eisenman já começa a manipular as palavras desde o título. Fusionando grotesco com textos. Uma alusão à significância que o grotesco representa, concomitantemente com a nova proposição da arquitetura ser interpretada como um texto (idéia que é exposta no ensaio sobre a figura retórica)fazendo assim, um jogo de significância que será melhor esclarecido no decorrer desta exposição.
O ensaio começa, pontuando algumas idéias explanadas por um de seus clientes, que o próprio Eisenman já havia se preocupado em expor anteriormente: a respeito da arquitetura não buscar uma evolução moderna. Mas agora, com uma nova problemática, a tecnológica que estava cristalizando-se. O fato do homem apenas buscar manter um controle da natureza, e através disto, produzir objetos racionais que materializassem o bom, o verdadeiro, o natural que seriam belos. Contudo, essa dominação não representaria mais o carro-chefe da arquitetura, pois uma nova perspectiva entraria em cena: a tecnologia dominando o homem, em vez do contrário.
Logo, Eisenman propõe um deslocamento do discurso arquitetônico, que além de continuar dominando as forças da natureza, agora abre o foco para essa nova realidade; a do conhecimento que exigiria uma complexidade maior de representação, já que se apresenta como algo não físico, diferentemente da natureza (físico).
Para chegar na conclusão do que seria esse deslocamento, como era de esperar, ele recorre a embasamentos para dar corpo a sua nova proposta. No caso, toma como partida de que toda arquitetura até então, estava fundada da tríade vitruviana (estrutura, comodidade e beleza). Onde o Belo, sendo dialético, estaria ligado ao bom, natural, racional e o verdadeiro; mostrando que independente da estética seguida, a busca destes valores sempre foram os mesmos.
No decorrer de sua explicação, toma Kant como exemplo quando diz que dentro da beleza existia o sublime, que era algo que não estava na esfera do bom e natural (esta condição de estar condito em, será a gênese do processo desta ideologia de deslocamento). Admite que o sublime contém uma condição incerta, indizível, não-natural, não-presente e não-físico (que o belo tenta mascarar, essa semelhança com o terrível).
A definição do grotesco, com a proximidade do terrível (negativo do sublime), não ocorre na arquitetura. Pois o sublime é algo do plano etéreo (não-material), e o grotesco corresponde à matéria, sendo a simbologia das incertezas humanas no plano físico. Logo, a arquitetura(matéria que contém o grotesco) fundada no belo, modela sua espacialidade, de forma a mascarar a presença do grotesco (idéia do disforme e supostamente não-natural) no plano material.
Segundo o artigo, o grotesco é a materialização da relação inquietante do eu, com o mundo natural, provocando essa representação disforme, do incerto e não-natural. Sendo o sublime e o grotesco a relação entre o homem e o mundo natural, explana que para ocorrer o deslocamento, será necessário uma reconceituação dos mesmos no domínio do conhecimento. Trará uma forma mais complexa, que contenha o feio dentro de si, ou uma racionalidade irracional.
O fato de “conter dentro de si”, significa uma ruptura com a tradição das coisas serem em pares opostos e traz quarto aspectos para que haja tal deslocamento.
-O primeiro, diz respeito ao projeto. Onde distancia o deslocamento de um mero expressionismo referente à intuição de gosto (gostar disso ou daquilo). Já que a intuição carrega o repertório arquitetônico, e tal projeto nunca produzirá um estado de incerteza; no máximo ilustrá-la.
Traz o grotesco e o estranhamente familiar, como algo não projetáveis, incertos, mas com possibilidade apenas de conceituação. Diferente do projeto, pois é não-textual, já que exprime uma certeza (para ser materializado); e que toda tentativa de projeto de algo entre o incerto e o polivalente apenas ilustrará superficialmente essas condições.
Para que o deslocamento ocorra, prega que elementos como forma, função, local e significado sejam vistos como textos (o que na realidade não são). Uma distinção importante é a do texto e textualidade: texto seria uma fonte original, e a textualidade uma condição de alteridade ou de coisa segunda. Um exemplo para tal textualidade, é o traço, a presença da ausência explanada no texto da figura retórica. O traço não pode ser original, pois remete a algo precedente, esse potencial de alteralidade tira a dominância da presença. Logo para que haja um traço, deverá existir no mínimo de dois textos.
-O segundo aspecto traz uma duplicidade, que na verdade reafirma o primeiro aspecto. Essa duplicidade não enquadra-se na categoria de forma e função. De estrutura e ornamento, pois são categorias hierárquicas. Já a duplicidade proposta, é referente à uma estrutura de equivalências, existindo uma incerteza, onde o traço nunca irá se sobrepor ao texto. Esse traço, será entendido como algo interior ao texto, que geralmente seria suprimido na leitura hierárquica. Logo a falta de dominância entre as duas presenças dos textos, traz uma condição entre a ausência e presença.
-O terceiro aspecto é uma condição de estar entre. Traz uma nova sugestão de objeto sendo uma imagem fraca, que seria a perca de uma significância majoritária dos textos. Assim os dois textos, com suas respectivas imagens fracas, insinuariam uma terceira imagem desfocada. Essa condição de estar entre (um não dialético, mas dentro de), seria algo que significaria quase uma coisa ou outra, que na verdade não é nada das duas coisas; o deslocamento representa essa incerteza de um conhecer parcialmente.
A arquitetura como uma imagem fraca, afasta as categorias tradicionais dessa dominação do mundo natural.
-O quarto aspecto, q ele pouco explica, chama-se interioridade, e traz dois novos termos: o não-visto e o escavado.
A interioridade, sugere a negação do recinto ou lugar tradicional, não tento ligação com o espaço interno, e sim um condição de estar dentro. Também é referente à textualidade, no que se aborda o significado dos signos da arquitetura deslocada, para dentro de uma condição já existente. O não-visto e o escavado, Eisenman traz que é tal como o grotesco.
Há uma mudança do pensamento do arquiteto que é pontuada no final do artigo. Pela primeira vez, há a figura do usuário, e afasta o gênio romântico no campo da arquitetura. Logo, o objeto não precisando mais do usuário nem do arquiteto para controlarem o mesmo, nem precisando parecer feio, disforme ou não-natural para causar incerteza. E sim esse distanciamento da possibilidade de posse, que irá provocar uma ansiedade.
Escrito e Postado por: Márcio Fernandes Tabosa
Próxima leitura: Visões que se desdobram: a arquitetura na era da mídia eletrônica
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